A conjuração mineira

Antônio Parreiras, Jornada dos mártires, Museu Mariano Procópio.

 


A sentença e os sentenciados: A condenação aos implicados no levante de Vila Rica foi assinada pela rainha D. Maria, os réus partem de Minas para o Rio de Janeiro.

 

A Vila Rica dos poetas


Em 1780, um século após a descoberta das minas, Vila Rica já havia muito deixara de ser um acampamento mineiro embarrado e sem atrativos. Situada no sopé do grandioso penedo do Itacolomi, no sul de Minas, a cidade se constituía de uma teia de ruas pavimentadas percorrendo ladeiras íngremes, ladeadas por graciosas construções de dois pisos, muitas das quais possuíam terraços ajardinados e floridos. No topo das colinas, ou em frente a praças amplas e arejadas, havia inúmeras igrejas barrocas com alteres reluzindo em ouro e paredes repletas de ornamentações suntuosas. Não era uma cidade: era uma obra de arte urbana. Vila Rica, disse um poeta, era “a pérola preciosa do Brasil”.
Mas a riqueza da cidade - seu ouro preto, seus diamantes reluzentes, suas minas opulentas - era também a fonte de suas desgraças. Submetida a uma sangria feroz, que se manifestava na forma de impostos de entrada e impostos de saída (qualquer produto levado às minas era duramente taxado: cada grama de ouro que saía pagava um tributo oneroso), Vila Rica via sua fortuna se esvair. Levado para além-mar, o ouro de Minas permitia a D. João V reinar numa luxuosa ostentação a ponto de se tornar conhecido como o Rei-Soleil português. O mais perturbador é que o “fulvo metal” nem sequer servia para enriquecer a Metrópole: era apenas o ouro “que Portugal distribuía tão liberalmente para a Europa” como observou o viajante Inglês Henry Fielding. Nada mais natural, portanto, que a jovem sociedade mineira - tão diferenciada da elite rural e latifundiária do nordeste - alimentasse um profundo estado de indignação e revolta. E essa revolta não demoraria muito para eclodir.
Além de constituir uma sociedade essencialmente urbana, possuía uma estrutura bem mais complexa do que aquela que se reduzia a senhores e escravo. Havia uma “classe média”: comerciante, mercadores, ourives, artistas e claro, poetas. Outra possibilidade aberta pelo ouro foi a chance concedida a alguns filhos da elite local de realizarem seus estudos na Europa. De fato, muitos herdeiros de mineradores bem sucedidos foram enviados para a universidade de Coimbra, em Portugal. Lá, vários deles tomaram contato com idéias liberais e republicanas, acompanhando o furor provocado pela revolução francesa e pela independência dos Estados Unidos.

 

O movimento dos Conjurados

Em 1788, sempre zelosa de sua mais opulenta capitania, a coroa substituiu o corrupto governador Luís da Cunha Mendes por Luís Antônio Furtado de Mendonça, visconde de Barbacena e sobrinho do vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza. O visconde chegou à vila Rica com ordens expressas para aplicar o Alvará de dezembro de 1750, de acordo com o qual Minas precisava pagar cem arrobas (ou 1500 quilogramas) de ouro por ano para a Coroa. Caso a arrecadação não atingisse essa conta, seria então, cobrada a derrama - o imposto extra tirado de toda a população até completar as cem arrobas. O visconde anunciou: a derrama, por mais odiada e temida que fosse, seria cobrado em fevereiro de 1789.
No dia 26 de dezembro de 1788, na casa do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, chefe do Regimento dos Dragões, alguns dos personagens mais importantes de Minas se encontraram para uma reunião conspiratória. Três tipos de homens estavam na reunião: Intelectuais como o filho do capitão-mor de Vila Rica José Álvares Maciel, entusiastas como o alferes José da Silva Xavier (que fora traído pelas idéias emancipacionistas de Maciel); e em maior número e muito mais voz de comando, mineradores e magnatas endividados, como Alvarenga Peixoto e o padre Oliveira Rolim, notório traficante de diamantes e de escravos. Mais tarde, na segunda reunião, no mesmo local, se juntaria ao grupo o negociante Joaquim Silvério dos Reis, talvez o homem mais endividado da capitania com um passivo oito vezes superior aos ativos. Todos decidiram se rebelar contra a Coroa.
Ficou decidido que, no dia em que fosse decretada a derrama, uma revolução eclodiria. Os planos para o golpe eram tão vagos quanto os projetos do futuro governo. Em tese, A revolta levaria à fundação, em Minas, de uma república independente, cuja capital seria São João Del Rei. O Distrito Diamantino seria liberado, assim como a exploração do ferro e a industrialização. Seriam construídos hospitais, criada uma universidade e talvez abolida a escravidão. O governo seria entregue a Tomáz Antônio Gonzaga, por 3 anos - a seguir seriam convocadas eleições livres. Em suma, Minas se tornaria o paraíso na Terra.
Mas o plano gorou: Em fevereiro de 1789, Barbacena suspendeu a derrama. Os inconfidentes se desarticularam. Só depois da suspensão da derrama foi que Joaquim Silvério dos Reis denunciou a trama - com o objetivo de obter o perdão de suas dívidas. Em maio, os acusados, um a um, começaram a ser presos. Em seguida foram enviados para julgamento no Rio. Na capital, ficaram três anos aguardando a sentença acusando-se mutuamente e clamando por perdão.

Antônio Parreiras, Prisão de Tiradentes, Biblioteca de Porto Alegre.

 

O destino dos conspiradores

A leitura da sentença, iniciada no dia 18 de abril de 1792, na sala do tribunal do Rio, teve a espantosa duração de 18 horas, prolongando-se das 8 da manhã às duas da madrugada seguinte. E ocorreu em meio a grande confusão, na presença dos dezoito acusados deitados em estrados de madeira, já que o peso de seus colares de ferro não permitiam que permanecessem de pé -, todos acompanhados pelos dezoito padres que os assistiam além de nove juízes, dezenas de guardas com suas armas carregadas e o próprio vice-rei. Pela cidade, todos os prédios públicos estavam guarnecidos depois de muita tensão, com os réus tresnoitados, em ferros e ansiosos, o escrivão passou a ler as sentenças: sete inconfidentes foram condenados ao degredo e onze condenados à morte.
De todas as sentenças originais, apenas uma foi mantida: aquela que condenava à morte e à infâmia o alferes Joaquim José da Silva Xavier. Tiradentes, órfão de pai e mãe desde os 10 anos, fracassara em tudo na vida, fora tropeiro, minerador e dentista. Em dezembro de 1755 alistara-se na Companhia dos Dragões e passou a patrulhar as estradas de minas. Em quatorze anos de carreira, recebeu apenas uma promoção, tendo estacionado no posto alferes (equivalente, hoje, ao de tenente). Em 1787, desgostoso com sua situação, pediu licença da tropa e mudou-se para o Rio, onde voltou a trabalhar como dentista e conheceu José Álvares Maciel, que o influenciou com idéias republicanas e separatistas.
De volta a minas, Tiradentes tornou-se o mais entusiástico e temerário propagandista do golpe. Mas não há dúvida de que seu papel na trama foi, e sempre seria, menor. Ainda assim, e por isso mesmo, era o bode expiatório ideal - e a Coroa o escolheu para servir de exemplo. Tiradentes cumpriu o papel com altivez espantosa. Desde a prisão no Rio, em maio de 1789 até o momento em que ouviu a leitura da sentença, Tiradentes não vacilou, blasfemou ou traiu. E era uma sentença terrível:
“Pelo abominável intento de conduzir os povos da capitania de Minas a uma rebelião, os juízes deste tribunal condenam ao citado réu a que, com baraço e pregão, seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca e nela morra a morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada cabeça e levada a Vila Rica, onde em que lugar mais público dela será pregada, em poste alto até que o tempo a consuma; e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregado em postes, pelo caminho de Minas, onde o réu teve suas infames práticas, até que o tempo também os consuma.”


Um símbolo brasileiro

Não se sabe como eram as verdadeiras feições de Joaquim José da Silva Xavier. Todos os retratos são fictícios - embora nenhum tenha seguido duas informações vindas de fonte segura.
Durante o julgamento dos inconfidentes, Alvarenga Peixoto descrevera Tiradentes como "feio e espantado”. O depoimento de frei Penaforte indicava também que ao ser conduzido ao patíbulo, o réu estava "com a barba e a cabeça raspadas”. Mas tais fatos eram adversos ao processo de mitificação do Tiradentes - foram, portanto, solenemente ignorados. Na mais brilhante análise da fabricação do mito de Tiradentes, feita por José Murilo de Carvalho no livro A formação das almas - O imaginário da Republica no Brasil, são analisadas todas as imagens de Tiradentes e de seu martírio. Neles, como em quase todos os demais, Tiradentes surge como “o mártir ideal e imaculado na brancura de sua túnica de condenado". Foi assim que ele se tornou aceito como símbolo nacional tanto par alguns monarquistas e abolicionistas como pelos republicanos.
O fenômeno se repetiria nos anos 60 do século XX, quando tanto os militares como grupos revolucionários de esquerda - e até mesmo o dinâmico e rebelde Teatro de Arena - usaram-no como símbolo de liberdade e de luta. Após dois séculos, Tiradentes vive.

 

O “Cristo brasileiro”: a imagem de Tiradentes com seu corpo esquartejado faz parte do imaginário brasileiro e ajudaram a construir um mito historiográfico.

 

 

Pedro Américo, Tiradentes, Museu Mariano Procópio. 

 

 

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