O Brasil dos Escravos

Os escravos eram plantadores e moedores de cana, derrubadores de mata e semeadores de mudas; eram vaqueiros, remeiros, pescadores, mineiros e lavradores; eram artífices, caldeireiros, marceneiros, ferreiros, pedreiros e oleiros; eram domésticos e pajens, guarda-costas, capangas e capitães-do-mato; feitores, capatazes e até carrascos de outros negros. Estavam em todos os lugares: nas cidades, nas lavouras, nas vilas, na mata, nas senzalas, nos portos, nos mercados, nos palácios. Carregavam baús, caixas, cestas, caixotes, lenha, cana, quitutes, ouro e pedras, terra e dejetos. Também transportavam cadeirinhas, redes e liteiras onde, sentados ou deitados, seus senhores passeavam (ou até viajavam). Eles eram, de acordo com o jesuíta Antonil, "as mãos e os pés dos senhores de engenho".
Mas, no Brasil, os escravos foram ainda mais do que isso: foram os olhos e os braços dos donos de minas; foram os pastores dos rebanhos e as bestas de carga; foram os ombros, as e as pernas que fizeram andar a Colônia e, mais tarde, o Império. Foram o ventre que gerou imensa população mestiça e o seio que amamentou os filhos dos senhores. Deixaram uma herança profunda: em 500 anos de história, o Brasil teve três séculos e meio de regime escravocrata contra apenas um de trabalho livre.


O tráfico negreiro


Embora a escravidão seja quase tão velha quanto a própria humanidade, jamais o tráfico de escravos fora um negócio tão organizado, permanente e vultoso quanto se tornou depois que os portugueses estabeleceram, em meados do século XVI, uma vasta rota triangular que uniu a Europa, a África e  a América e  transformou milhões de africanos em lucrativa moeda de troca. Manufaturas européias eram levadas para Guiné e cambiadas por escravos em entrepostos costeiros. Os mesmos navios partiam em seguida conduzindo em seus porões aldeias inteiras para trabalhar até a morte nas plantações do Brasil. Uma vez no Novo Mundo, esses escravos em geral não eram vendidos, mas trocados por açúcar, revendido, a seguir, com grande lucro na Europa. A fórmula logo pôde incluir a Ásia, já que os panos coloridos feitos em Goa, na Índia, passaram a ser a mercadoria mais oferecida nas feitorias da Guiné. Mas o pioneirismo lusitano foi logo ameaçado pela concorrência dos holandeses, ingleses e espanhóis. No século XVII, se já não eram os maiores traficantes de escravos do planeta, britânicos e holandeses eram os que mais lucravam com eles.
No século seguinte, porém, brasileiros e portugueses radicados no Brasil se tornariam os maiores e mais eficientes traficantes de escravos da história. Utilizando-se da cachaça e do tabaco de terceira, baratos e abundantes no Brasil e apreciadíssimos na África, criaram um circuito comercial espantosamente eficiente e rendoso. Embora capturados cada vez mais no interior do continente africano, os escravos iam ficando cada vez mais baratos à medida que aumentava o interesse pelo fumo e pela aguardente. Os postos de captura e troca de escravos logo se espalhavam por quase toda a África negra, incluindo Moçambique e outros portos do Índico.  O mercado de carne humana floresceu plenamente até 1815, quando, sentindo-se prejudicada pelo tráfico, a Inglaterra decidiu proibi-lo.
Preocupados com os indígenas, que morriam como moscas não apenas por sua absoluta impossibilidade de adaptação ao regime de trabalho forçado como também pelos surtos epidêmicos que grassavam nos aldeamentos, nas senzalas ou nos engenhos, os jesuítas foram os primeiros a incentivar o tráfico de africanos para o Brasil. Mais bem adaptados à produção agrícola e ao trabalho organizado, os negros de fato se revelaram uma opção mais rentável para os senhores de engenho. O negócio, por cedo se mostrou muito melhor para os traficantes: trocados por fumo e cachaça, os escravos eram baratos na África. Como o açúcar feito no Nordeste do Brasil era levado para a Europa nos mesmos navios que traziam os escravos da África, os negreiros forçavam os engenhos a adquirir novos escravos sob pena de não comprarem seu açúcar. Assim, os senhores de engenho logo se endividaram.
O preço baixo e a facilidade de substituir as "peças" explicam por que, entre as duas opções que dividiam os senhores de escravos - "deve-se criá-los ou comprá-los?" -, os brasileiros sempre optaram pela segunda. A mortalidade infantil também era assustadoramente alta entre os escravos - isso quando eles conseguiam ”reproduzir em cativeiro”, já que o número de mulheres trazidas da África foi cinco vezes menor do que o dos homens. A máquina escravagista que se estabeleceu primeiro nos engenhos (que "gastavam" cerca de duzentos escravos por ano, cada) e depois nas minas das Gerais, associada ao costume substituir o escravo morto pelo moribundo seguinte, transformou o Brasil na maior nação escravista do Novo Mundo, e aquela que mais dependia de escravos. As consequências econômicas, políticas, morais e sociais foram enormes.

 

 

Rugendas, Negros no porão do navio, Museu Castro Maya.

O navio negreiro: Rugendas criou um retrato que representa o interior dos barcos de transporte de escravos denominados “Tumbeiros”.

 

 

 

Os requintes da crueldade

Como em todas as sociedades escravistas, também no Brasil a variedade de suplícios e castigos estipulados pelos senhores para punir seus escravos foi ampla, geral e irrestrita. A punição mais comum era o açoite em praça pública regulada pelo
Código Penal.
Faltas "menos graves" eram punidas com a palmatória, cujas pancadas
podiam chegar a duzentas; com o tronco que, segundo Debret, provocava "mais tédio do que dor"; ou com a gargalheira, colar de ferro com vários ganchos que facilitava a captura de escravos fujões. A primeira fuga era punida com a marcação por ferro em brasa, de um F no rosto ou no ombro do escravo. Na segunda tentativa, o fugitivo tinha uma orelha cortada e, na terceira, era chicoteado até a morte. Outras “faltas graves” além da fuga podiam ser punidas com a castração, a quebra dos dentes a martelo, a amputação dos seios, o vazamento dos olhos ou a queimadura com lacre ardente. Houve casos de escravos lançados vivos nas caldeiras ou passados nas moendas, além daqueles que, besuntados de mel, foram atirados em grandes formigueiros. As punições eram, em geral, aplicadas por outros escravos – atrás deles, porém, ficava o feitor, sempre pronto a punir qualquer brandura ou esmorecimento por parte do carrasco.
Durante trezentos anos, o castigo foi uma peça básica para o pleno funcionamento e a manutenção da engrenagem escravista no Brasil. Existiam leis feitas para “impor limites ao arbítrio e à cólera dos senhores”, mas, tais leis não têm força e são desconhecidas tanto pelos escravos quanto pelos senhores.

 

 

Jean Baptiste Debret, Escravo no tronco, Biblioteca Municipal Mário de Andrade.

 

 

 
 

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