O Brasil dos Jesuítas

De 1549, quando de­sembarcaram na Bahia, até 1759, quan­do, pelas artimanhas do marquês de Pom­bal, foram expulsos de Portugal e de suas colônias, os jesuítas se revelaram uma das forças mais ativas na conquista e coloni­zação do Brasil. Sem eles, a empresa colo­nial teria outros rumos e outros destinos. Os jesuítas lutaram contra a escravização dos indíge­nas, mas o piano de catequização que pu­seram em prática — e a consequente concentração dos índios em aldeamentos ou "missões" — não apenas resultou em tra­gédia, em razão dos graves surtos de doenças ­infecciosas, como facilitou a ação dos escravagistas. Os próprios jesuítas, o padre Nóbrega à frente, tinham escravos e acre­ditavam na doutrina aristotélica da servidão natural de povos "inferiores". Para de­fender os nativos, estimularam o tráfico de africanos. Mas quando a paz que tinham firmado com os Tamoio foi rompida pelos portugueses, os padres nada fizeram.
Os jesuítas se empenharam em subme­ter os indígenas aos rigores do trabalho metódico, aos horários rígidos, ao latim e a monogamia. Combateram a antropofa­gia, a poligamia e o nomadismo — e, assim, acabaram sendo responsáveis pela desestruturação cultural que empurrou para a extinção inúmeras tribos. Por outro lado, foi graças á ação evangélica que a língua e a gramática tupi acabaram sendo registradas e preservadas. De todo modo, não restam dúvidas de que, ao fim e ao cabo, o papel desempenhado do pelos jesuítas no Brasil foi tremendamente conservador. No entanto, se não fossem as cartas e relatórios minuciosos daqueles padres — os jesuítas praticamente não davam um passo sem registrá-lo —, seria praticamente impossível reconstruir a história do Brasil colônia.


As missões jesuíticas

Eram cerca de sessenta povoados, alguns com mais de cinco mil habitantes, dispersos, numa área de 450 mil km2, cercados por ervais frondosos e imensos rebanhos. Atacados implacavelmente por mais de uma década, de 1628 a 1641, renasceram das cinzas com viço e vigor redobrados. Por volta de 1700, restavam apenas os Trinta Povos Guaranis, mas lá viviam cerca de 150 mil almas. No auge de seu poderio urbano, econômico e artístico, porém, as fabulosas reduções voltaram a ser arrasadas — e então, para sempre.
A vida cotidiana se assemelhava a de um quartel: o sino tocava antes de o sol raiar e a missa era celebrada para todos. Depois da distribuição de papa de milho, as crianças a partir de sete anos iam para a escola. Ao redor do colégio se erguiam as oficinas dos artesãos. Os trabalhos começavam por volta das sete horas — mesmo horário no qual, cantando e portando piedosos estandartes, os lavradores partiam para a faina nos campos comunais, os Tupa'mbê (ou terras de Deus). Por volta das onze horas, descanso para o almoço. As tardes, em geral, eram dedicadas ao cultivo na terra da família, às aulas de música e latim e, é claro, à catequese. Ao pôr-do-sol, todos se recolhiam.

 

 

 

 

 

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