O Brasil holandês
Por 24 anos, os holandeses foram senhores de sete
das dezenove capitanias em que se dividia o Brasil do século XVII.
Velhos parceiros comerciais de Portugal atacaram a maior das colônias
lusas, entre outras razões, porque travavam com a Espanha a guerra por
sua independência. Invadir o Brasil era unir o útil do lucro
açucareiro ao agradável da vingança contra um inimigo ancestral. A
tomada da zona produtora de açúcar do Brasil foi um plano
minuciosamente articulado pela Companhia das Índias Ocidentais — empresa
de capital privado que obteve do governo holandês o monopólio do
comercio com a América e a África. A invasão de Salvador, em 1624,
durou apenas um ano e deu prejuízo à companhia. Mas, em marco de 1630,
os holandeses tomaram a cidade do Recife — e lá ficaram até a sua
expulsão, em janeiro de 1654. Ao longo desse quarto de século, os sete
anos conhecidos como o "tempo de Nassau" (1637 a 1644) marcaram o
apogeu do domínio holandês no Brasil, originando a tradição segundo a
qual o destino desse país seria mais nobre caso o projeto colonial da
Companhia das Índias Ocidentais tivesse sido mantido.

O tempo de Nassau
O domínio holandês em Pernambuco (de onde se estendeu para sete das então dezenove capitanias que constituíam
o Brasil) divide-se em três fases. A primeira, de 1630 a 1637, seria
marcada pela valorosa resistência dos luso-brasileiros no interior. De
1637 a 1644 o Brasil holandês floresce em relativa paz: é o chamado
"período nassoviano". De 1645 a trava-se a guerra que resultaria na
expulsão dos invasores. Três séculos e meio depois, experiência
holandesa no Brasil continua associada ao tempo de Nassau.
Tolerante, competente, dedicado e ágil, Nassau fez
um governo brilhante. Primeiro tomou Porto Calvo, último foco da
resistência aos invasores. Depois, atraiu os plantadores
luso-brasileiros concedendo-lhes empréstimos para reerguer seus
engenhos — e os deu da agiotagem dos negociantes holandeses ejudeus,
limitando os juros a 18% ao ano. Deu liberdade de culto, tratou bem os
nativos, aumentou a produção de açúcar, urbanizou o Recife, protegeu os
artistas, apaziguou a colônia. Foi um príncipe.
A expulsão dos Holandeses
Em 6 de maio de 1644, depois de
vários meses em choque com os dirigentes da Companhia das Índias
Ocidentais, João Maurício de Nassau renunciou ao governo do Brasil
holandês. Sua decisão causou comoção no Recife e demais zonas sob o
domínio batavo (na época, cerca de mil quilômetros de costa, desde São
Luis do Maranhão até Sergipe).
No dia 3 de agosto de 1645 foi travada a batalha de
Tabocas, início da insurreição. Embora no exército luso-brasileiro
muitos lutassem armados apenas de foices e paus, os holandeses foram
batidos. Em breve, estariam completamente encurralados no Recife.
Sitiados no Recife, os invasores resistiram com
bravura até 26 de janeiro de l654, mas então, em guerra com a
Inglaterra, em permanente conflito interno com a província da Zelândia e
precisando do sal de Portugal para preservar seus peixes, a Holanda
desistiu da guerra do açúcar, abrindo mão do Brasil. Em 1661, depois de
receber uma compensação de quatro milhões de cruzados, a Holanda
abdicou oficialmente de suas pretensões no Nordeste. A essa altura, os
palácios e jardins de Nassau já haviam sido "consumidos na voragem de
fogo e sangue dos anos de guerra". E o conde era governador da
província de Kleve, na Alemanha, onde morreu, em 1679, aos 75 anos de
idade, amargurado e empobrecido — e com sua monumental "Brasiliana"
dispersa por vários palácios da Europa.