O Brasil indígena
Os baixios lamacentos do que é o atual Estado do
Maranhão às longas extensões arenosas da costa do sul do Brasil,
praticamente todo o litoral brasileiro estava ocupado por tribos do
grupo Tupi-Guarani quando, em abril de 1500, Pedro Álvares Cabral
desembarcou nas areias fascinantes de Porto Seguro. Havia cerca de 500
anos, Tupinambá e Tupiniquim tinham assegurado a posse dessa longa e
recortada costa, expulsando as tribos “bárbaras”, que eles chamavam de
“Tapuia”.
O que os conduzira até lá não fora apenas um impulso
nômade: partindo dos vales dos Madeira e Xingu (afluentes da margem
direita do Amazonas), os
Tupi-Guarani deram no começo da Era Cristã, a uma
ampla migração de fundo religioso, em busca de a suposta "Terra Sem
Males". Em vez do paraíso, depararam, dez séculos depois, com aos homens
barbudos e pálidos, vindos do Leste. A história desse encontro é a
história de um genocídio.
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Os Tupinambá constituíam o povo Tupi por excelência - o pai de
todos, por assim dizer. As demais tribos Tupis eram, de certa forma,
suas descendentes, embora o que de fato as unisse fosse a teia de uma
inimizade crônica. Os Tupinambá propriamente ditos ocupavam da margem
direita do rio São Francisco até o Recôncavo Baiano. Seriam mais de
100 mil. De todos os povos indígenas litorâneos, é o mais conhecido. Jean de Léry, Índios Tupinambás guerreiros, Biblioteca Municipal Mário de Andrade. |
O banquete Antropofágico
De todos os “costumes bárbaros” que professavam os
índios brasileiros quando da chegada dos colonizadores ao Novo Mundo,
nenhum se revelou mais espantoso aos olhares europeus do que a
antropofagia. Ainda que o canibalismo não fosse prerrogativa dos
indígenas e já houvesse, em plena Europa, o registro de casos ocorridos
em época de crise e fome, nada conhecido até então se comparava aos
requintes tétricos do banquete antropofágico tal como realizado por
quase todos Tupi e Tapuia.
A morte ritualizada e a deglutição eucarística dos
cativos representavam o ponto culminante de uma cerimônia cujo
sacramento maior, e o objetivo quase único, era a vingança.
A vítima era capturada no campo de batalha e
pertencia àquele que primeiro a houvesse tocado. Triunfalmente conduzido
a aldeia do inimigo, o prisioneiro era insultado e maltratado por
mulheres e crianças. Quando a data fatídica se aproximava, os
guerreiros preparavam ritualmente a clava com a qual a vítima seria
abatida. A seguir, começava o ritual, que se prolongava por quase uma
semana e do qual participava toda a tribo, das mulheres aos guerreiros,
dos mais velhos aos recém-nascidos.
Os ossos do morto eram preservados: o crânio, fincado
numa estaca, ficava exposto em frente à casa do vencedor; os dentes
eram usados como colar e as tíbias transformavam-se em flautas e
apitos.
![]() Théodore De Bry, Preparo da carne humana em episódio canibal, Biblioteca Municipal Mário de Andrade.
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