O Brasil da família Real

 Jean Baptiste Debret, D. João VI, Museus Castro Maya.



A cerimônia do beija mão e beija pés, onde os cortesões beijam a mão de D. João VI.

 

 A fuga de Portugal


Por meses a fio, por meio de um intrincado jogo diplomático e a custa de muitas humilhações, D. João VI havia conseguido manter uma aparente neutralidade na luta travada por Napoleão para submeter à Inglaterra a sua coroa imperial. No dia 12 de agosto de 1807, a França e sua aliada, a Espanha, deram um ultimato a Portugal: se até o dia primeiro de setembro D. João não fechasse seus portos a navios ingleses, confiscasse propriedades e prendesse todos os súditos britânicos residentes no país, a aliança franco-espanhola declararia guerra a Portugal.
Encurralado entre duas hipóteses desastrosas (romper com a Inglaterra, um antigo e poderoso aliado ou desafiar seus aguerridos vizinhos), D. João VI, com o auxilio e simulação dos ingleses, postergou a decisão até 20 de outubro, quando fingiu ter bloqueado seus portos aos britânicos. Não foi o bastante: em novembro, o general Janot deu início à invasão de Portugal.
Desde o dia 20, chovia sem parar e, desde a tarde do dia 27, a família real já estava embarcada. Só no dia 29, porém, o tempo mudou. Depois de mais uma manhã chuvosa, o dia rompeu radioso, e o vento soprou do nordeste. Foi o chamado. ”vento espanhol” que empurrou a esquadra real para a segurança do Brasil. No exato instante em que Junot tomava Lisboa e, do alto da torre de Belém, bombardeava os navios em fuga, atingindo apenas um e caindo em desgraça com Napoleão.
O Rio remodelado

Felix-Emile Taunay, Rua Direita, Rio de Janeiro.

 


Uma visão da Rua direita, a principal do via Rio de Janeiro ao tempo do desembarque da família real.

 

Embora desde o dia de sua descoberta o cenário geográfico monumental que envolve a Baía de Guanabara tenha encantado a navegadores, viajantes e poetas, o fato é que,em 1808, a cidade do Rio de Janeiro era precária, malcheirosa, provinciana, suja e descuidada. Os membros da corte e da família real não precisaram mais do que dez minutos para percebê-lo.  A viagem fora incômoda: na pressa, os pertences de cada grupo foram postos em navios diferentes. Velas foram cortadas para se transformar em camisas; a comida não era suficiente, a água era pouca e ruim. Nos primeiros dias no Rio, porém a situação não melhorou muito.
A família real e seus 350 lacaios ficaram de início, instalados no Paço do Vice-Rei, “moradia miserável para a realeza”, apenas “dignificada com o nome de palácio”. Para alojar milhares de nobres e cortesãos, cerca de duas mil casas foram requisitadas e seus moradores simplesmente desalojados. De início, muitos cariocas ficaram felizes em ceder seus lares, mas, ao perceber que a espoliação era feita sem rodeios e parecia ser permanente, se revoltaram. Casas confiscadas eram marcadas com as letras P. R (de “Príncipe Regente”). O povo logo passou a traduzi-las por “Ponha-se na rua” ou “Propriedade roubada”. Ainda assim, a cidade ganharia, em breve, tantos melhoramentos que poucos foram os que realmente saíram perdendo.
Aceitando a oferta de Elias Antônio Lopes, um rico traficante de escravos, D. João VI se mudou para a Quinta da Boa Vista. A seguir, determinou o início das obras de remodelamento do Rio: charcos foram drenados, ruas ampliadas e calçadas construídas, novos e suntuosos bairros, como Glória, Flamengo e Botafogo, praticamente criados, e a Rua Direita, toda modernizada. Antes disso, horrorizado com o aspecto "bárbaro" conferido a cidade pelos muxarabis - grades de madeira ripada que cobriam as janelas -, D. João baixou um decreto em junho de 1809, obrigando todos os moradores a retirá-los. Em menos de cinco anos, o Rio já estava bastante modificado. Com a chegada da missão francesa, em 1816, a cidade iria lentamente adquirir ares imperiais.


O Banco do Brasil

Quando D. João fundou o Banco do Brasil, em 12 de outubro de 1808, só havia três bancos emissores no mundo. A idéia, portanto, em tese, era boa. Mas, criado com capital inicial de 1.200 contos e com objetivo de gerar fundos para manter a Corte no Brasil, o banco logo passou a emitir mais do que arrecadava.
A seguir, começaram os desfalques, os desvios e o “extravio” do dinheiro. Em vez de “preceder a rigoroso inquérito, como aconselhava a salvação da instituição” o governo “impôs o silêncio pela violência aos que davam curso àqueles boatos”, como relatou, injuriado, em 1821, o conselheiro Pereira da Silva.
Seu colega, o também conselheiro José Antônio Lisboa, também lastimou "o mau uso que se fazia dos fundos do Banco e as prevaricações de seus empregados". Em abril de 1829, quando as notas emitidas pelo banco já tinham sido desvalorizadas em 190% com relação ao ouro, o então
ministro da Fazenda Miguel Calmon (mais tarde marquês de Abrantes) apresentou à Câmara dos Deputados proposta para dissolução da instituição.
Após calorosos debates, no dia 11 de dezembro de 1829  - data na qual se esgotavam os privilégios previstos na fundação -, o Banco do Brasil foi então liquidado judicialmente. Só seria restabelecido um quarto de século mais tarde, em 1853.

 

 

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