Os Bandeirantes

Eles eram os piratas do sertão.  Perambulavam pelos atalhos, pelos planaltos e pelas planícies armados até os dentes, com seus sons de guerra e suas bandeiras desfraldadas. Eram grupos paramilitares rasgando a mata e caçando homens para além da lei e das fronteiras; para aquém da ética. A sua passagem, restava apenas um rastro de aldeias e vilas devastadas; velhos, mulheres e crianças passados a fio de espada; altares profanados, sangue, lágrimas e chamas. Incendiados pela ganância e em nome do avanço da escravizaram indígenas aos milhares. Alguns historiadores paulistas os definiram como uma "raça de gigantes"— e não restam dúvidas de que eles foram sujeitos intrépidos e indomáveis. São tidos como os principais responsáveis pela expansão territorial do Brasil — e com certeza o foram. Embora tenham sido heróis brasileiros, tornaram-se também os maiores criminosos de seu tempo.
Em apenas três décadas — as primeiras do século XVII — os bandeirantes e seus mamelucos mataram ou escravizaram cerca de 500 mil índios, destruindo mais de cinquenta reduções jesuíticas nas regiões do Guaira, do Itatim e do Tape. Desafiaram as leis e os reis de Portugal e da Espanha. Blasfemaram contra Roma, foram excomunga­dos pelo papa. Ainda assim, ignoraram as ameaças e só foram contidos pela força das armas. Transformaram sua capital, São Pau­lo, num dos maiores centros do escravismo indígena de todo o continente. Mais fize­ram dela uma cidade sem lei — reino de ter­ror, ganância e miséria. E também o pólo a partir do qual todo o sul do Brasil pode, en­fim, crescer, desenvolver-se e se endinheirar.

Jean Baptiste Debret, Bandeirantes de Mogi das Cruzes em combate, Biblioteca Municipal Mário de Andrade.

 

 

Caçadores de Homens


Embora o auge das bandeiras tenha coincidido com o alvorecer do século XVII prolongado por todo ele, o apresamento de indígenas sempre fez parte da história de São Paulo — na verdade, constituía sua própria essência.
A captura de índios do sertão, porém, só se tornou negócio em alta escala — o maior e quase único a sustentar as famílias de Piratininga — a partir de 1571, graças às iniciativas do capitão-mor de São Vicente, Jerônimo Leitão. Em 1591, com a chegada do sétimo governador-geral do Brasil, Francisco de Sousa, inicia-se o ciclo chamado de "bandeirismo ofensivo".
A escravização dos índios "reduzidos" era rigorosamente ilegal. Mas, vivendo no topo do planalto, longe do Brasil litorâneo e das capitanias bem-sucedidas de Pernambuco e da Bahia, os paulistas logo adquiriram uma mentalidade independente e rebelde. Julgando-se abandonados pela metrópole e se sentindo o refugo da colônia, criaram uma civilização própria, funda­mentada em temeridade ecobiça vertiginosas.
Por mais de um século, a maioria da população de São Paulo (cerca de seis mil brancos em 1700) dedicou-se a captura de indígenas. O bandeirismo tornou-se um negócio cuja técnica era passada de pai para filho — inúmeros jovens iam para o sertão e muitas bandeiras eram empresas familiares unindo pais, filhos, tios, cunhados e genros. Embora promovidas por brancos, as bandeiras não teriam sobrevivido no sertão não fossem as técnicas indígenas. O grosso da tropa era constituído de ­indígenas, escravos ou não.
Na chegada a São Paulo, os índios eram repartidos entre os bandeirantes e seus financistas. Ao contrário do que afirma a história oficial, poucos cativos eram enviados para o Nordeste. A maioria ficava em São Paulo.
Raposo Tavares, Fernão dias, Borba gato e Domingos Jorge Velho foram os principais bandeirantes.


As bandeiras


O nome: Segundo o historiador Capistrano de Abreu, teria nascido do costume Tupiniquim de levantar uma bandeira em Sinai de guerra. 

Formação : Um capitão-mor, com poder de vida e morte sobre os comandados, duas a seis dezenas de brancos, duas a quatro centenas de mamelucos e alguns milhares de indígenas - por vezes até cinco mil entre domésticos e escravos.  

Armas : Indígenas e mamelucos usavam apenas arco e flecha. Os brancos, mosquetes, pistolas e facas.

Roupas : Nativos e mamelucos marcharam nus ou de tanga. Os brancos iam descalços, de chapéu, calças largas e "coira de anta", um colete acolchoado.

Ritmo da marcha: de dez a doze quilômetros por dia. As jornadas podiam durar de sete meses a três anos.
Alimentação
: farinha, milho, palmito, caça e pesca. 

Entradas : eram expedições oficiais de exploração do sertão. 

Armações : eram as bandeiras financiadas por um investidor, o armador, que não ia ao sertão.

Nativos escravizados: 356.720 "peças" em 150 anos, segundo cálculos de Alfredo Ellis Jr.

Valor das "pecas" : em 1628, 20 mil-réis, ou 1/5 do de um africano.

 

M. J. Botelho Egas, Carga de cavalaria guaicuru, Museu Paulista.

 

 

 

As monções Bandeirantes


Mais do que uma mera versão fluvial das marchas sertanistas, as monções foram um desdobramento — de certa forma uma evolução — da expansão bandeirante. Suas principais características e peculiaridades mais intrigantes estão resumidas a seguir:

O que eram:As monções eram grandes caravanas fluviais que partiam do vilarejo de Araritaguaba — hoje chamado Porto Feliz na margem esquerda do rio Tietê, a 155 quilômetros de São Paulo e, por uma estrada aquática "de mais de mil léguas de comprido", seguiam até Cuiabá (MT).

Origem do movimento: A descoberta do ouro em Born Jesus do Cuiabá (MT), em outubro de 1722, pelo sertanista Miguel Sutil, provocou uma louca corrida às novas minas. Dizia-se que, ali, o ouro estava à flor da terra — o que, aliás, era fato.

Duração do percurso :Na ida, com canoas carregadas e algumas correntes contrárias, a jornada durava 5 meses — o mesmo que de Lisboa a Índia. Na volta, cerca de 2 meses — o mesmo que de Salvador, na Bahia, a Portugal. 

Tamanho dos comboios : Cada expedição tinha entre trezentas a quatrocentas canoas. Em geral, partia um só comboio por ano, com até 3 mil pessoas.

 

 

Caravana aquática: O quadro pintado por Almeida Jr., retrata toda a agitação que antecedia a partida de uma monção, ás margens do rio Tietê.

 

 

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