O reino do pau Brasil
Durante as duas primeiras décadas,
desinteressada em colonizar a terra a qual Cabral chegara a Coroa
portuguesa acabou por transformá-la numa imensa fazenda de pau-brasil,
logo arrendada à iniciativa privada. Dessa forma, a árvore que ajudou a
dar nome aopaís começaria a se tornar também a mais perfeita metáfora
vegetal do Brasil — mais que a borracha, o açúcar ou o café.
O pau-brasil ( Caesalpinia echinata) tingia
linhos, sedas e algodões, concedendo-lhes um "suntuoso tom carmesim ou
purpúreo": a cor dos reis e dos nobres. Uma espécie semelhante, a Caesalpinia sappan, nativa
de Sumatra, já era conhecida na Europa desde primórdios da Idade
Média. A partir do século XVI, porém, praticamente todos os tecidos
produzidos em Flandres e na Inglaterra passaram a ser coloridos pelo
“pau-de-tinta” brasileiro.
O pau-brasil foi o primeiro monopólio estatal do Brasil: só a Metrópole podia
explorá-lo. Seria também o mais duradouro dos cartéis: a exploração só foi
aberta à iniciativa privada em 1872, quando as reservas já haviam escasseado
brutalmente. Exploração não é o termo: o que houve foi uma devastação, com a
derrubada de sete milhões de árvores. Como que confirmando a vocação
simbólica, o pau-brasil seria usado, em setembro de 1826, para o pagamento dos
juros do primeiro empréstimo externo do Brasil. Ao deparar com o Tesouro
Nacional desprovido, D. Pedro I enviou à Inglaterra 50
quintais (três toneladas)
de pau-brasil. A esperança do imperador de saldar a
dívida com o "pau-de-tinta" esbarrou numa inovação tecnológica: o
advento da indústria de anilinas reduzira em muito o valor da
árvore-símbolo do Brasil. Os juros foram pagos com atraso. Em
dinheiro, não em paus.
“Quanto ao meio do carregar essa mercadoria (o pau-brasil), direi que tanto por causa da dureza, e consequente dificuldade em derrubá-la, como por não existirem (...) animais para transportá-la, e ela arrastada por meio de muitos homens; e se os estrangeiros que por aí viajam não fossem ajudados pelos selvagens não poderiam sequer em um ano carregar um navio de tamanho médio. Os selvagens em troca de algumas roupas, chapéus, facas, machados (...) cortam, serram, racham, atoram e desbastam o pau-brasil, transportando-o nos ombros nus ás vezes até três léguas(de 13 a 20 quilômetros) por sítios escabrosos, até a costa junto aos navios ancorados, onde os marinheiros o recebem.”