Pré história brasileira


      Não se sabe com certeza desde quando o homem está na America, embora a estimati­va e a via de penetração     oficialmente aceitas — doze mil anos eras, através de migrações via estreito de Bering (a ponte de gelo que, em épocas glaciais, unia a Ásia ao Alasca) — estejam sob o ataque constante de novas datações e novas teorias. Ha indícios (ainda não inteiramente comprovados) de que os primeiros paleoíndios possam ter chegado ao Brasil há pelo menos 50 mil anos e que talvez tenham vindo por via marítima, depois de cruzar o Pacífico. Seja como for,
 é certo que por volta de doze mil anos atrás boa parte do território brasileiro já estava ocupada por grupos caçadores e coletores pré-históricos.

Tais grupos são divididos pelos arqueólogos em tradições, estabelecidas de acordo com os resquícios de sua cultura material — essencialmente instrumentos de pedra e pinturas rupestres. Grande parte das atuais regiões Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, por exemplo, era ocupada por membros da chamada tradição Nordeste, que possuía indústria lítica refi­nada e fazia belas pinturas rupestres. Ao redor de sete mil anos eras, esse grupo foi substi­tuído pelas tribos da tradição Agreste, que não dominava as artes, exceto a da guerra. No sul, a tradição mais antiga é a Ibicuí, estabelecida na bacia do rio Uruguai ha cerca de treze mil anos. Eram caçadores que enfrentavam os animais da megafauna, como a preguiça gigante megatério. Entre 6.500 e2.000 surgiu, da região que agora é o Estado de São Paulo para o Sul, a tradição Humaitá. A agricultura desenvolveu-se a partir de 3.500 e a cerâmica, pouco depois. Não é nada fácil estabelecer um vínculo preciso entre os grupos pré-históricos e as tribos indígenas que seriam encontradas pelos portugueses a partir de abril de 1500. Na verdade, muitos dos primeiros habitantes do Brasil se extinguiram, ou foram massacrados ou absorvidos por grupos indígenas que chegaram ao território muitos séculos depois daqueles pioneiros.
De todo modo, o certo é que, quanto mais se iluminarem as trevas do passado, mais o Brasil conhecerá seu próprio futuro.

Pintura Rupestre, Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Gilvan Barreto/Abril Imagens.

 

A Toca do Boqueirão

 

Trata-se de um dos sítios arqueológicos mais polêmicos do mundo e um dos mais deslumbrantes também. A Pedra Furada é um bloco rochoso avermelhado de 150 metros de altura que se ergue em meio à vastidão desolada da caatinga, no município de São Raimundo Nonato, sudoeste do Piauí.
A Pedra Furada, a Toca do Boqueirão e a região adjacente formam um deslumbrante conjunto natural. Toda a área faz parte do Parque Nacional da Serra da Capivara, criado em junho de 1995 e desde 1996 tombado como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. No parque, há quatrocentos sítios arqueológicos, dos quais 260 com pinturas rupestres. Só na Pedra Furada, são mais de mil. Elas registram, com requinte visual e vigor narrativo, o cotidiano, o mundo natural e o universo espiritual do povo que as concebeu e realizou.

 

Fábio Colombini, Pedra Furada, São Raimundo Nonato, Serra da Capivara, Piauí. 

 

Luzia

Foi no Brasil que surgiu um dos mais intrigantes achados da pré-história ameri­cana. Em 1974, no sítio da Lapa Vermelha, município de Pedro Leopoldo (MG), a equipe da arqueóloga Annette Laming-Emperaire encontrou o crânio de uma mulher — mai tarde batizado de "Luzia", que teria morrido há cerca de onze mil anos.
Graças a tal constatação, os arqueólogos passaram a trabalhar, a partir de 1996, com o chamado "modelo das Quatro Migrações". De acordo com essa nova hipótese — que tem ganhado cada vez mais força entre os especialistas —, a América teria sido colonizada a partir de quatro fluxos migratórios. Os três últimos foram empreendidos por populações mongóis (cujo DNA é o mesmo das populações indígenas atuais).
O crânio de Luzia contempla os estudiosos, materializando a pergunta que não quer calar. E os mistérios inerentes ao primeiro – e autêntico – descobrimento do Brasil permanecem uma questão em aberto. O que, aliás, a torna ainda mais fascinante.

 

Reconstrução do crânio do fóssil Luzia, Agência Estado.

 

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